Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Maestros, obras primas e loucura: um relato

O estudo musical pode ser considerado como um dos campos mais vastos do conhecimento humano. Não apenas pela quantidade de gêneros e obras que concentra, nem por aquelas que inevitavelmente surgirão, mas pelo grau de perfeição com que esta precisa ser concebida e interpretada. Além disso, uma classe de músicos, que não necessariamente arrancam sons dos instrumentos, mas gerenciam todos eles nas salas de concerto, devem estar com os ouvidos aguçados. Porém, nesse cenário nem todos os compositores, intérpretes e regentes conseguem conviver com tais exigências.


Esse é um dos elementos que o crítico e escritor britânico Norman Lebrecht, um dos mais respeitados comentaristas da música erudita da atualidade, aponta em seu último livro, Maestros, Obras Primas e Loucura: a vida secreta e a morte vergonha da indústria da música clássica.


Publicado na Inglaterra em 2007 e lançado recentemente no Brasil, sua obra apresenta os bastidores da brilhante e lucrativa indústria da gravação, as disputas por poder que caminharam junto ao desenvolvimento das tecnologias de captação sonora, seus personagens e como estes conseguiram adoecer os órgãos que compõem a música erudita.

Lebrecht faz um resgate histórico focalizando o início da era da gravação e como ela se tornou um desejo para homens ousados que alcançaram poder após sucessivos fracassos. Recheado de datas históricas envolvendo os principais músicos que se entregaram a esse “pecado”, seja na intenção de eternizar suas interpretações ou de faturar milhões com um contrato com os selos de gravação, ele não deixa de destacar ao longo de todo o livro como o interesse econômico superou a intenção de expandir esse gênero musical.

Os historiadores e estudiosos são harmônicos quanto ao fato de a primeira gravação ter ocorrido em 1877, um feito realizado pelo inventor Thomas Alvas Edison, que conseguiu capturar a própria voz em um fonógrafo ao entoar a canção Mary had a little Lamb (Maria tinha um carneirinho). A primeira gravação profissional que viria ser a propulsora desse reinado aconteceu em 1902, quando o tenor napolitano Enrico Caruso aceitou receber um cachê para contribuir com o início do processo que, como descrito por Lebrecht, ocasionou o declínio da música erudita.

O autor não descarta a contribuição que a indústria deu à difusão desse conhecimento, que até 1920, quando a novidade deslanchou, só poderia ser conferida nas salas de concerto, frequentadas em sua maioria pela burguesia. Para os mentores desse projeto e seus colaboradores, os próprios músicos, essa seria a chance de eternizar uma obra sem falhas e próxima à perfeição.

Sua redação prende o leitor e, em alguns utilizando certo ironismo, Lebrecht consegue plantar um sentimento duplo em quem acompanha seu relato. No livro, o autor resgata a visão do conservador Artur Schnabel, pianista do século passado que alegou aos sedutores que “o ato de gravar vai contra a própria natureza da execução musical”, porque isso elimina o contato visual entre executante e ouvinte, ato que desumaniza a arte. Para ele, a execução musical é um momento único no tempo. Uma mesma obra jamais terá o mesmo brilho duas vezes.

Outros, como o renomado e aclamado maestro Hebert Von Karajan, deviam tudo o que tinham graças aos estúdios. Karajan tornou-se conhecido por dirigir a Filarmônica de Berlim, uma das mais tradicionais e respeitadas do mundo. Seu reinado durou cerca de meio século, e suas gravações com essa e outras orquestras totalizaram mais de 200 milhões de discos vendidos, o elevando ao grau de artista clássico mais consumido.

Karajan foi um mixto de estrela e de ditador. Considerado como um dos maiores regentes que o mundo já viu, as coisas deveriam acontecer da forma como ele queria, e fazia de tudo para que sua opinião sobre os mais variados temas prevalecessem. Sua influência foi mais política do que musical, embora fosse considerado uma lenda viva. Mas isso era esquecido quando lembravam-se de seu forte temperamento. E foi com essa "garra" que se tornou um dos maiores milionários da indústria da música erudita.

Apenas um desabafo

Maestros, obras primas e loucura é divido em três sessões. A primeira, que se restringe ao desenrolar da história da gravação de música clássica, ainda leva o leitor a entender o contexto em que surgiram os principais selos do gênero e como estes seduziram os mais renomados músicos desse cenário. Obras primas eleva, com conceitos convincentes, os 100 melhores registros feitos ao longo desse primeiro século de gravação e loucura sintetiza as 20 piores, que nunca deveriam ter nascido.

Para chegar a tal resultado, Lebrecht, que é temido por produtores, intérpretes e regentes, criou uma enquete para verificar quais obras, na opinião do público, poderiam ou não ser consideradas uma raridade na produção e execução musical. Porém, ele destaca que fazer esse tipo de seleção é como catalogar os clássicos da literatura, que falam por si se devem ser eleitos ou não um marco nessa esfera.

Ele esclarece que não queria que a análise fosse realizada mediante critérios que, para alguns, poderiam ser referentes à intensidade da execução ou qualidade de gravação. E alerta que essa ainda pode não ser a lista ideal quando se trata das melhores obras, mas que a proximidade é similar.

A título de informação, entre as piores está registrado o disco Moment of Glory, gravado em 2000 pela Orquestra Filarmônica de Berlim e a banda de Rock Scorpions. Lebrecht aponta que isso ocorreu em um momento desesperador para a orquestra, que como tantas outras buscam um meio de gerar lucros para não morrer de fome. O maestro Simon Rattle, que não participou dessa “loucura”, considerou o feito como uma ideia horrível, e avisou aos músicos que aquilo não deveria se repetir. Para o autor do livro, as canções eram uma mistura de trilhas sonoras dos filmes de James Bond e velhos sucessos dos Rolling Stones.

Entre as melhores encontra-se a versão de 1955 das Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach, interpretadas por um pianista canadense de 23 anos que era definido como maluco, que murmurava enquanto tocava, se vestia inversamente às condições climáticas e que carregava sua própria banqueta de piano. Mais tarde, o mundo soube quem era Glenn Gould, que se tornou um dos maiores intérpretes da música do Bach. Gould se enamorou tanto pelos estúdios que, nove anos depois desta que foi sua primeira experiência de registro fonográfico, não quis mais saber de apresentações públicas, dedicando o resto de sua vida às gravações, que foram interrompidas quando faleceu, aos 50 anos.

Dentre as 100 melhores selecionadas pelo autor, a obra mais vendida de todos os tempos no campo erudito foi o Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, com 18 milhões de cópias. Os méritos são da Orquestra Filarmônica de Viena sob a regência do maestro George Solti.

Muito mais que um relato, a obra de Lebrecht pode ser considerada como um desabafo de alguém que viveu entre essa realidade e que agora denuncia a arma utilizada para tirar a música clássica de cena. O autor projeta que a compra de CDs, que em alguns casos já representou tiragens altíssimas para o setor, não sobreviverá aos próximos anos. É a Internet quem se carregará de continuar a difundir essa tradição, já que ela contribui para derrubar a indústria e está rumo a ocupar o seu trono.

Esse sobe e desce da indústria fonográfica, nas mãos de Lebrecht, pode ser definido do mesmo modo apontado pelo jornal The Economist: “um relato formidável.”

Norman Lebrecht é editor assistente do Evening Standard e apresentador do “levrecht.live” na Rádio BBC3. Ele escreveu 11 livros sobre música, traduzidos para 15 idiomas e é considerado um dos principais comentaristas culturas do nosso tempo. Lebrecht ganhou o prêmio Whitbread First Novel de 2003 com seu romance The Songs
of Names. É autor de O mito do maestro, publicado pela Civilização Brasileira. 

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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Google comemora aniversário de Stravinski

O Google, maior portal de buscas da internet, presenteou os amantes da música erudita ao relembrar em sua página o nascimento de um dos maiores compositores do século XX: Ígor Stravinski. Se vivo, o pianista e regente russo completaria hoje, 17 de junho, 127 anos. Famoso por suas composições, dentre elas os balés O pássaro de Fogo (1910), Petrushka (1911) e a Sagração da Primavera (1913), Stravinski ganhou notabilidade no cenário musical por seu estilo diversificado.

Nascido em Oranienbaum, cidade situada na costa sul do golfo da Finlândia e que em 1948 passou a chamar-se Lomonosov, Stravinski cresceu não muito longe dali, em São Petesburgo. Suas influências musicais começaram em casa. Seu pai foi baixo da Ópera Imperial e sua mãe era pianista. No entanto, apesar de seu envolvimento com a música já nos primeiros anos de vida, seus pais esperavam que este se tornasse advogado. Em 1901 ingressou na Universidade de São Petesburgo para estudar Direito, curso que não concluiu devidamente e que jamais chegaria a exercer.

Paralelo aos estudos jurídicos, ele passou a dedicar mais tempo à música. Conheceu o então influente compositor russo Nilolai Rimsky-Korsakov, com quem passo a ter aulas. Ao longo de sua trajetória, compôs obras que lhe renderam prestígio tanto na Rússia, Europa e nos Estados Unidos.

Durante sua jornada estabeleceu-se em diversos países, conheceu músicos e pensadores de sua época e aventurou-se pela literatura, campo pelo qual sempre demonstrou interesse. Nessa caminhada recebeu auxílio por parte de variados colaboradores e em 1936 publicou sua autobiografia, intitulada Chronicles of my life.

Ao final de sua carreira, Stravinski estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde teve contato mais próximo com a obra de Arnold Schoenberg. Em 1969 fixa-se em Nova Iork, onde falece dois anos depois. Seus trabalhos ainda são executados nas salas de concerto de todo o mundo. O compositor foi considerado pela revista Time como uma das 100 personalidades mais influentes do século XX.

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Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Um concerto muito além do esperado


Nos dias 30 e 31 de maio a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas mudou seu cronograma. Devido à greve dos servidores da Prefeitura, o concerto agendado previamente foi cancelado. No entanto, aqueles que ficaram chateados ao chegarem e repararem que havia apena um piano no meio do palco, ao final se surpreenderam.


Este foi o meu caso. Fazia algum tempo que queria assistir um concerto da Sinfônica. Já havia ido outras vezes e assistido alguns concertos, mas desta vez o que encontrei ao adentrar o Centro de Convivência Cultural Carlos Gomes, na sala Luís Otávio Brunier, foi inédito. Não havia a maestrina Ligia Amadio e seus talentosos músicos, mas uma pianista brasileira e radicada na Alemanha.

Fany Solter simplesmente surpreendeu. É claro que se tivesse uma orquestra ao fundo o impacto seria muito diferente. Mas ao contrário de passar 1h30 minutos ouvindo apenas uma seleção de músicas clássicas, Solter investiu criatividade em seu recital. O que, inicialmente, aparentava cansativo (já que o nome recital já remete a algo maçante) resultou num aprendizado significativo para os ouvintes.
Antes de cada música Solter analisava ou contava algum dado interessante sobre o músico e sua obra. A pianista resolveu começar pelo mais pesado: uma peça de Wolfgang Amadeus Mozart - “Variações em Sol maior sobre um tema da Ópera ‘Os peregrinos de Meca’, de Gluck.

Um gênio entre nós
A apresentação de Mozart revelou a grande virtuosidade e musicalidade de Solter, mas ao mesmo tempo cansou os ouvintes. A seguir, antes da peça “Sonata, op.13, em dó menor”, a pianista contou um pouco sobre o compositor e autor da obra Ludwig Van Beethoven. Entre os diversos aspectos, a senhora lembrou o enorme talento de Beethoven, que infelizmente não conseguiu ouvir suas últimas composições por ficar surdo. O grande nome da música acompanhava suas composições apenas através de vibrações.

Uma das melhores partes do recital foi quando Fréderic Chopin entrou em cena. Solter apresentou as peças “Estudo op.10, n.9”, “Noturno op.15, n.3” e “Scherzo n.2, op.31, em si bemol menor”. O Noturno foi algo simplesmente encantador. Solter conseguiu unir a virtuosidade, expressividade a leveza de Chopin.
A pianista enfatizou que, para ela, as obras de Chopin servem muito mais para educar e ensinar conceitos musicais.

Por isso, ela o denominou como um grande mestre. Ficou evidente o talento de Solter para apresentar obras de Chopin, já que ela já gravou em CD as obras de Câmara de Chopin.
Ao final, veio a surpresa. Solter convidou um violoncelista da Sinfônica para fazerem um dueto em uma peça com cinco movimentos de música popular brasileira. Essa parte animou a platéia que se embalava junto e aplaudia ao final do concerto em pé. A ideia de Solter não poderia ser melhor para terminar o recital de piano. Quem não foi perdeu... o evento foi completamente diferente do planejado.

Breve Biografia:
Premiada em vários concursos internacionais, como o de Munique e Vercelli. Atua como solista em concertos com várias orquestras, como a Sinfônica de Praga. Desde 1976 é Fany Solter catedrática na Hochschule fuer Musik (University of Music) de Karlsruhe, Alemanha, da qual foi reitora de 1984 até 2001.

O governo brasileiro condecorou Fany Solter com a « Medalha Villa-Lobos » pelos grandes serviços que ela tem prestado à música brasileira na Europa. No ano de 1994 recebeu do governo alemão a « Gran Cruz do Merito », a condecoração mais alta daquele pais. Em 2003 foi agraciada com a “Medalha do Mérito” do Estado de Baden-Württemberg.

Suellen Timm

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Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Bocelli faz apresentação única em SP

De volta ao Brasil, o tenor italiano Andrea Bocelli faz apresentação única na cidade de São Paulo nesta terça-feira, 21.O evento acontece no Parque da Independência, às 16. A entrada é gratuita.
Acompanham o tenor a Orquestra Sinfônica do Paraná e o Coro Nova Philarmônica, que se apresentam com ele desde o último sábado, no concerto que ocorreu no Rio de Janeiro. Bocelli apresentará músicas de seu último álbum, intitulado "Incanto" e as canções que marcaram sua carreira, como "Con te pártiro". (Veja trecho no vídeo abaixo)
A regência ficará sob a batuta do maestro Eugene Kohn, que retorna à cidade, onde já realizou óperas e concertos.



Considerado um cantor de óperas, Bocelli já gravou quatro delas completas: La behème, de Puccini; Il Trovatore, de Verdi; Werther, de Massenet, baseado no livro de mesmo nome do escritor alemão Johann Wolfgang Von Goethe; e Tosca, de Puccini.

O cantor ganhou popularidade na decada de 90 e desde então tem se apresentado nos mais diferentes países, inclusive no Brasil. Além disso, suas gravações não se limitam apenas ao campo erudito. Como compositor Bocelli já escreveu diversas obras de cunho popular, retratando inclusive a cultura italiana. Detentor de diversos premios por sua performance, gravou com músicos renomados dos mais diferentes gêneros, entre eles o tenor italiano Luciano Pavarotti e a canadense Céline Dion.

Constantemente participa de eventos beneficentes que buscam levantar fundos para vítimas atingidas pelos mais diversos tipos catastrofes.




Visite o site oficial: www.andreabocelli.com

Saiba como chegar ao Parque da Independência, localizado na Av. Nazareth, s/n, no Ipiranga.



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Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Tenor discute carreira e cenário erudito nacional

Bacharel em canto pela Faculdade de Música Carlos Gomes, o tenor Wilian Dolfini foi integrante do Coro da Osesp por sete anos. Trabalhou com diversos maestros, dentre eles Eleazar de Carvalho, John Neschiling, Roberto Minczuk, Ciro Pereira, Nelson Ayres e Abel Rocha. Teve aulas na Alemanha e Estados Unidos, trabalhou como solista em diversas obras e atua como regente e instrutor vocal. Tem se apresentado regularmente em recitais e em produções operísticas no Brasil e na Europa, além de dirigir a cooperativa Músicos Independentes, recém fundada em Sorocaba, SP.
Nesta entrevista Dolfini fala dos momentos que marcaram sua trajetória artistica e a atual comenta o crescente cenário erudito nacional.


Orquestrando - Como você teve o primeiro contato com a música?

Wilian Dolfini – Em casa todo mundo estudou música. Meu pai, meus tios. Nós temos uma tradição musical muito grande em nossa família.

Orquestrando - Você se lembra com quantos anos você começou?

W D - Eu me lembro que com sete anos eu comecei a tocar flauta. Eu fiquei onze anos tocando flauta ininterruptamente. Eu gostava muito de flauta, cantava juntamente no coro da igreja, pois que eu sou de origem presbiteriana.

Orquestrando - Como você começou a cantar?

W D - Bom, eu era flautista e, na verdade, sentia que algo faltava para mim. Musicalmente eu estava realizado pela metade. Eu tenho um primo que canta na Orquestra da Filadélfia e ele veio para o Brasil fazer um recital. E então eu falei: é isso que eu quero fazer. Foi nesse dia que eu me encontrei.

Orquestrando – Depois disso você abandonou a flauta de vez ou continuou paralelamente com ela e o canto?

W D – Durante muito tempo eu fiz as duas coisas. Mas devagarzinho o canto foi tomando um lugar de importância maior. Eu realmente encostei a flauta.

Orquestrando - E nessa época quais foram as maiores dificuldades que você encontrou?

W D – Encontrar um bom professor em quem eu pudesse confiar a educação da minha voz. E também o custo. Estudar canto é um negócio muito caro, você tem que pagar professor de canto, pagar pianista, tem que assistir espetáculo. A formação do músico no Brasil é um negócio muito dispendioso. Então isso foi uma dificuldade também.

Orquestrando - Ao longo desses anos você estudou com diversos professores, muitos aqui no Brasil e alguns no exterior. Você tem alguma lembrança marcante dessa época?

W D – Na verdade sim. Eu tenho muitos bons momentos na minha memória das coisas que fazíamos em sala de aula. Especialmente com o falecido Edilson Costa, que foi meu padrinho de casamento e inclusive era o meu pai artístico. Ele e a Jocelene Galo, sua esposa, que também era minha professora. Com eles eu passei grandes momentos na sala de aula que marcaram minha vida técnica, artística, pessoal e emocional.

Orquestrando – Entre 1994 e 2001 você integrou o coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Como se deu essa oportunidade? Como tudo isso aconteceu?

W D – Bom, foi muito legal. Eu prestei um concurso em 94 e passei em primeiro lugar. Depois ingressei no coro. Era algo que eu queria muito fazer. Eu já fazia faculdade de canto na época, estava no segundo ou terceiro ano, não me lembro, mas foi uma oportunidade incrível de fazer um repertório sinfônico muito interessante. Coisas que eventualmente a gente não teria chances de fazer se não fosse naquela instituição, com aquela estrutura. Por exemplo, peças como a Missa em Si Menor, Paixão Segundo São Mateus, de Bach, são coisas que são tão grandiosas e tão difíceis de fazer que se não for numa estrutura muito organizada como é a do Estado, teria pouca chance de fazer, então valeu demais, foi uma experiência muito bacana.

Orquestrando – Durante os sete anos que você esteve no coro da Osesp você trabalhou com os mais importantes regentes do País. Como isso te ajudou a crescer profissionalmente?

W D - Observando, prestando atenção, com carinho, com atenção mesmo, fazendo nota das coisas que eles diziam. Escrevia ali na partitura mesmo para que essas coisas se perpetuassem de alguma maneira. Eu sempre gostei muito do que faço, então eu sempre encarava cada ensaio como uma aula. Foi fantástico, foi um super curso. (risos)

Orquestrando - Existe alguma experiência marcante dessa época que você queira compartilhar?

W D - Uma vez fizemos uma peça chamada Belshazzar's Feast, de um compositor inglês chamado Willian Walton. É uma peça nova, de 1944. Fizemos com o coro da Osesp, o coro Paulistano do Teatro Municipal e a orquestra do Teatro Municipal de São Paulo. Fizemos esse concerto, que é uma das coisas mais difíceis que eu cantei na vida, mas uma das mais lindas também. E quem veio nos reger foi um maestro inglês chamado Sir David Wilcop. Esse sujeito foi pra mim um marco de que a sabedoria e a humildade andam juntas, porque cada observação, cada pedido que ele fazia para a orquestra, para o coro, era objetivo e era envolto em respeito, em carinho e musicalidade. Isso marcou.

Orquestrando - Qual é a maior dificuldade para o solista da música erudita na atualidade?

W D - O mercado de trabalho. É inexistente no Brasil. Fundamentalmente é isso. Porque é até difícil o músico se manter motivado na profissão, porque não tem mercado. Essa é a maior dificuldade.

Orquestrando – Mas nós temos visto que de alguns anos pra cá as salas de concertos tem tido um número maior de ouvintes e uma quantidade enorme de músicos internacionais tem estado aqui, talvez como um reflexo disso. Como você enxerga isso? Ainda existe muita coisa que precisa ser melhorada no cenário musical brasileiro?  

W D - Acho que certamente tem muita coisa que a gente pode melhorar, mas realmente você fez uma observação muito verídica, verdadeira mesmo. Os nossos concertos estão aumentando em número, em qualidade, em espectadores. Isso é fantástico. Eu vejo nisso uma evolução mesmo. Eu acho isso, mas tem muita coisa que melhorar.

Orquestrando - E o que falta no cenário erudito no Brasil?

W D - Eu acho que falta mercado mesmo, sabe? Eu acho que nós temos músicos incríveis, nós somos grandes exportadores de músicos para o mundo inteiro. Até é um momento que eu acho interessante. Nós estamos organizando uma cooperativa de músicos em Sorocaba justamente na intenção de prover ao músico uma chance de ter uma independência profissional, porque a vida do músico ou ela está ligada a uma instituição como um corpo instável do Estado, ou uma universidade, uma igreja ou a uma escola ou a tudo isso junto. Tem muito músico que toca em cinco, seis lugares ao mesmo tempo, é uma loucura, é quase uma insanidade. Então estamos pensando numa cooperativa de músicos, um celeiro onde iremos reunir o maior número de músicos que conseguirmos, na intenção de reunir diversos tipos de trabalhos musicais, criar produtos musicais que vão desde coisas simples, como casamentos, festas, batizados, até concertos de música, ópera. A ideia é essa, trabalhar em todos os segmentos, e não só na música erudita, mas também na música popular.

Orquestrando - Que diferença você vê no cenário erudito e popular em termos de condições de trabalho?

W D - Eu não vejo muita diferença para o músico popular. Ele também sofre muito. O mercado nos compra, porque ele consome música de diversas maneiras. Na indústria tem uma série de eventos que acontecem durante o ano inteiro que as pessoas consomem música. Só que as o pessoal não tem onde buscar esse negócio. A cooperativa, na verdade, busca isso, ser um ponto onde as pessoas possam ter a sua necessidade musical satisfeita. Unimos dois pontos importantes: a necessidade do músico e a necessidade da indústria. Então acho que dessa maneira vamos criar uma oportunidade de trabalho a mais para esses músicos. Acho que é isso que falta para o mercado.

Orquestrando - Essa cooperativa estaria aberta a todos os músicos do País? Vocês também têm apoio de mais alguma entidade, de mais pessoas?

W D – Por lei sim. A cooperativa está aberta a todas as pessoas que moram no território nacional, brasileiros ou não, desde que devidamente inscritos na Ordem dos Músicos do Brasil. Nós temos o nosso escritório central e estamos fazendo uma estratégia para trabalhar com células. Nós vamos criar a célula de Sorocaba, vamos criar a célula de Piracicaba e estamos estudando a possibilidade de criar uma célula já em Curitiba para unir os músicos desses pólos e congregar essa necessidade e essa vontade de fazer música juntos e poder levar isso para o mercado.

Orquestrando - Qual o papel da Ordem dos Músicos do Brasil nesse cenário? Como ele tem contribuído para a expansão do mercado e também para melhores condições de trabalho para o músico?

W D - Essa pergunta é muito difícil. Eu sou filiado a Ordem dos Músicos desde 1987 e, sinceramente, eu encontrei tantas dificuldades no meu relacionamento com eles que acabei tornando ela na minha vida um órgão sem proveito. Eu não consigo me relacionar, realmente eles não têm nada que possa vir a me interessar, infelizmente. Eu vejo que existe uma diferença da dos Advogados, por exemplo, que falam com um determinado respeito e orgulho da ordem deles. Com os músicos é o contrário. A relação com a Ordem dos Músicos do Brasil é sempre complicada, ela é sempre parcial e isso desmotiva, sabe? A todos os músicos, não só a mim. Eu posso dizer por muita gente.

Orquestrando – Você falou em relação ao trabalho do músico tanto erudito quanto popular. O seu gênero é só erudito ou também popular?

W D - Eu estudei música erudita. Especificamente eu gosto de mexer com ópera. É isso que eu gosto. Mas eu, enquanto regente, tive que me envolver com outros trabalhos, tive que me envolver com música popular e vou ser bastante franco que pra mim foi um grande prazer. Foi um grande prazer trabalhar com música popular e fazer arranjos de coisas para coral e para grupos instrumentais. Eu tenho o foco e o coração voltado para música erudita, mas especificamente para a música sinfônica e de ópera. Mas eu acho não cantaria música popular, apesar de gostar muito. (risos)

Orquestrando - Você que já está há alguns anos no mercado como solista e também como regente. Como você avalia o preparo dos estudantes hoje?

W D - Existe uma pluralidade de informação disso que chamamos de escola de música, de ensino, tanto de canto quanto de regência, até de instrumental. Acho que a nossa cultura deixa algumas lacunas no crescimento musical, algumas coisas que são voltadas a educação mesmo. Por exemplo, o músico precisa de disciplina. O brasileiro não tem muito o hábito de ser disciplinado. O músico precisa ter disciplina, ele precisa estudar todos os dias. Eu vejo que nós temos faculdades, professores e músicos excelentes na condução dos nossos alunos. Acho que certamente nós teremos músicos incríveis daqui pra frente. Já temos e daqui pra frente ainda mais, mas, eu acho que a nossa cultura brasileira peca um pouco nisso, sabe? E o músico muitas vezes se percebe disso tardiamente. Às vezes é uma pena. O cara patina um tempão aí porque não tem disciplina. Isso é um problema.

Orquestrando - Há pouco tempo foi aprovada uma lei que garante o ensino da música nas escolas. Isso é bom para o Brasil?

W D - Eu acho isso fantástico porque a música no Brasil é uma coisa fantástica. Os nossos músicos são criativos. A nossa cultura, no consumo e na criatividade da arte é extremamente valorosa, rica. Eu acho que prover, desde a infância, uma orientação para esses que mais cedo ou mais tarde vão se despontar como músicos é fantástico. Você já vai plantar ali no sujeito a vontade de conhecer, vai plantar nele o desejo de desenvolver a curiosidade, o deslumbre, todas essas coisas que fazem parte da motivação. Sem contar os benefícios que a música traz na vida das pessoas.

Orquestrando - Hoje o músico, o cantor da música erudita, precisa dominar algumas línguas para poder trabalhar com seu repertório. Como foi isso para você? Você estudou quais línguas? Quais as dificuldades quando você é contratado para um trabalho novo cuja língua você desconhece?

W D – Excelente pergunta. Na verdade, o músico erudito tem que dominá-las mesmo, principalmente as línguas européias, o italiano, o inglês britânico, o francês, o espanhol, o alemão, sobretudo, são línguas que o cantor precisa estudar. Eu estudei todas essas línguas na intenção mesmo de poder ajustar minha profissão. Eu tenho fluência em algumas delas, por exemplo, o italiano, o inglês, eu já tive do alemão, mas o alemão você perde, porque é muito difícil. Mas eu estudei a fundo essa coisa de pronúncia, nisso eu caprichei mesmo. Não necessariamente você precisa ter domínio da língua, mas você precisa ser capaz de pegar um texto, um dicionário e saber o que é que você vai cantar, o que é que você vai interpretar, isso você precisa ser capaz de traduzir. Até porque na vida do cantor o mais importante da arte que ele pratica é justamente o texto, é a mensagem que você leva. Então isso é uma preocupação realmente muito grande que o cantor tem de ter.

Orquestrando - E como você vê o retorno de todo esse esforço?

W D – Na verdade eu não penso nisso. Eu penso que pra mim é um prazer toda vez que eu deparo com a necessidade de usar uma dessas coisas que eu estudei e ela estar lá. Eu posso, portanto, desfrutar. Então, na verdade, eu penso nessas coisas como ferramentas e eu eventualmente tenho a chance de usá-las. Então é um pouquinho cara essa coisa. Para ser cantor você tem que se aparelhar de uma série de coisas e de conhecimentos. É uma atividade difícil, mas muito prazerosa. Então é bom saber que quando você precisa de determinada coisa, você já passou por isso.

Orquestrando - Você já pensou em fazer alguma outra coisa da vida a não ser cantar?

W D - Fotografar. Fotografar e cozinhar são duas coisas que eu gosto muito. (risos)

Orquestrando - Hoje você tem isso como hobby?

W D - Eu tenho como hobby. Mas se não fosse músico acho que seria fotógrafo, talvez. (risos)

Orquestrando - Qual a obra do seu repertório que você considera mais difícil?

W D - Poxa, rapaz, eu já cantei tanta coisa muito difícil. Eu considero tudo difícil, a verdade é essa. Eu tenho humildade em dizer, porque todas as peças apresentam uma dificuldade peculiar. Eu não costumo graduar a dificuldade, eu costumo graduar os passos para atingir até a execução que me agrada e eu nunca estou satisfeito. (risos) Eu costumo pensar assim: isso é difícil? É. Ok. Então qual é a estratégia que vou ter para estudar essa peça a ponto de conquistá-la?

Orquestrando - Atualmente você desenvolve algum projeto ou está ligado a alguma instituição?

W D - Não, eu estou sem contrato, sem trabalho fixo, mas eu estou muito voltado para a cooperativa. Isso tem tomado quase todo o meu tempo. E eu acho isso bom porque no fim das contas eu quero que a cooperativa seja um sucesso.

Orquestrando - E quais seus planos para o futuro? Você pretende continuar estudando?

W D - Eu quero voltar para a escola. Quero voltar e fazer mestrado e seguir o quanto eu puder. Quero estudar mais regência, quero estudar mais canto. Eu estudo qualquer coisa, você põe na minha mão é só estudar. (risos) Mas eu quero voltar sim e fazer mais uma graduação, talvez, um mestrado ou sei lá, enfim.

Orquestrando - Você pensa em lecionar futuramente?

W D - Eu já dei aula durante muitos anos, mas eu gosto de ser músico de palco. A minha vontade é essa. Eu também gosto de lecionar. Eu tenho amor por essa atividade, mas ela nunca está nos meus planos. Se precisar ou se houver um convite ou qualquer coisa eu me disponho porque eu acho interessante, eu acho que eu voltaria a fazer, mas eu me sinto um músico de palco.

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