Tenor discute carreira e cenário erudito nacional
Bacharel em canto pela Faculdade de Música Carlos Gomes, o tenor Wilian Dolfini foi integrante do Coro da Osesp por sete anos. Trabalhou com diversos maestros, dentre eles Eleazar de Carvalho, John Neschiling, Roberto Minczuk, Ciro Pereira, Nelson Ayres e Abel Rocha. Teve aulas na Alemanha e Estados Unidos, trabalhou como solista em diversas obras e atua como regente e instrutor vocal. Tem se apresentado regularmente em recitais e em produções operísticas no Brasil e na Europa, além de dirigir a cooperativa Músicos Independentes, recém fundada em Sorocaba, SP.
Nesta entrevista Dolfini fala dos momentos que marcaram sua trajetória artistica e a atual comenta o crescente cenário erudito nacional.
Orquestrando - Como você teve o primeiro contato com a música?
Wilian Dolfini – Em casa todo mundo estudou música. Meu pai, meus tios. Nós temos uma tradição musical muito grande em nossa família.
Orquestrando - Você se lembra com quantos anos você começou?
W D - Eu me lembro que com sete anos eu comecei a tocar flauta. Eu fiquei onze anos tocando flauta ininterruptamente. Eu gostava muito de flauta, cantava juntamente no coro da igreja, pois que eu sou de origem presbiteriana.
Orquestrando - Como você começou a cantar?
W D - Bom, eu era flautista e, na verdade, sentia que algo faltava para mim. Musicalmente eu estava realizado pela metade. Eu tenho um primo que canta na Orquestra da Filadélfia e ele veio para o Brasil fazer um recital. E então eu falei: é isso que eu quero fazer. Foi nesse dia que eu me encontrei.
Orquestrando – Depois disso você abandonou a flauta de vez ou continuou paralelamente com ela e o canto?
W D – Durante muito tempo eu fiz as duas coisas. Mas devagarzinho o canto foi tomando um lugar de importância maior. Eu realmente encostei a flauta.
Orquestrando - E nessa época quais foram as maiores dificuldades que você encontrou?
W D – Encontrar um bom professor em quem eu pudesse confiar a educação da minha voz. E também o custo. Estudar canto é um negócio muito caro, você tem que pagar professor de canto, pagar pianista, tem que assistir espetáculo. A formação do músico no Brasil é um negócio muito dispendioso. Então isso foi uma dificuldade também.
Orquestrando - Ao longo desses anos você estudou com diversos professores, muitos aqui no Brasil e alguns no exterior. Você tem alguma lembrança marcante dessa época?
W D – Na verdade sim. Eu tenho muitos bons momentos na minha memória das coisas que fazíamos em sala de aula. Especialmente com o falecido Edilson Costa, que foi meu padrinho de casamento e inclusive era o meu pai artístico. Ele e a Jocelene Galo, sua esposa, que também era minha professora. Com eles eu passei grandes momentos na sala de aula que marcaram minha vida técnica, artística, pessoal e emocional.
Orquestrando – Entre 1994 e 2001 você integrou o coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Como se deu essa oportunidade? Como tudo isso aconteceu?
W D – Bom, foi muito legal. Eu prestei um concurso em 94 e passei em primeiro lugar. Depois ingressei no coro. Era algo que eu queria muito fazer. Eu já fazia faculdade de canto na época, estava no segundo ou terceiro ano, não me lembro, mas foi uma oportunidade incrível de fazer um repertório sinfônico muito interessante. Coisas que eventualmente a gente não teria chances de fazer se não fosse naquela instituição, com aquela estrutura. Por exemplo, peças como a Missa em Si Menor, Paixão Segundo São Mateus, de Bach, são coisas que são tão grandiosas e tão difíceis de fazer que se não for numa estrutura muito organizada como é a do Estado, teria pouca chance de fazer, então valeu demais, foi uma experiência muito bacana.
Orquestrando – Durante os sete anos que você esteve no coro da Osesp você trabalhou com os mais importantes regentes do País. Como isso te ajudou a crescer profissionalmente?
W D - Observando, prestando atenção, com carinho, com atenção mesmo, fazendo nota das coisas que eles diziam. Escrevia ali na partitura mesmo para que essas coisas se perpetuassem de alguma maneira. Eu sempre gostei muito do que faço, então eu sempre encarava cada ensaio como uma aula. Foi fantástico, foi um super curso. (risos)
Orquestrando - Existe alguma experiência marcante dessa época que você queira compartilhar?
W D - Uma vez fizemos uma peça chamada Belshazzar's Feast, de um compositor inglês chamado Willian Walton. É uma peça nova, de 1944. Fizemos com o coro da Osesp, o coro Paulistano do Teatro Municipal e a orquestra do Teatro Municipal de São Paulo. Fizemos esse concerto, que é uma das coisas mais difíceis que eu cantei na vida, mas uma das mais lindas também. E quem veio nos reger foi um maestro inglês chamado Sir David Wilcop. Esse sujeito foi pra mim um marco de que a sabedoria e a humildade andam juntas, porque cada observação, cada pedido que ele fazia para a orquestra, para o coro, era objetivo e era envolto em respeito, em carinho e musicalidade. Isso marcou.
Orquestrando - Qual é a maior dificuldade para o solista da música erudita na atualidade?
W D - O mercado de trabalho. É inexistente no Brasil. Fundamentalmente é isso. Porque é até difícil o músico se manter motivado na profissão, porque não tem mercado. Essa é a maior dificuldade.
Orquestrando – Mas nós temos visto que de alguns anos pra cá as salas de concertos tem tido um número maior de ouvintes e uma quantidade enorme de músicos internacionais tem estado aqui, talvez como um reflexo disso. Como você enxerga isso? Ainda existe muita coisa que precisa ser melhorada no cenário musical brasileiro?
W D - Acho que certamente tem muita coisa que a gente pode melhorar, mas realmente você fez uma observação muito verídica, verdadeira mesmo. Os nossos concertos estão aumentando em número, em qualidade, em espectadores. Isso é fantástico. Eu vejo nisso uma evolução mesmo. Eu acho isso, mas tem muita coisa que melhorar.
Orquestrando - E o que falta no cenário erudito no Brasil?
W D - Eu acho que falta mercado mesmo, sabe? Eu acho que nós temos músicos incríveis, nós somos grandes exportadores de músicos para o mundo inteiro. Até é um momento que eu acho interessante. Nós estamos organizando uma cooperativa de músicos em Sorocaba justamente na intenção de prover ao músico uma chance de ter uma independência profissional, porque a vida do músico ou ela está ligada a uma instituição como um corpo instável do Estado, ou uma universidade, uma igreja ou a uma escola ou a tudo isso junto. Tem muito músico que toca em cinco, seis lugares ao mesmo tempo, é uma loucura, é quase uma insanidade. Então estamos pensando numa cooperativa de músicos, um celeiro onde iremos reunir o maior número de músicos que conseguirmos, na intenção de reunir diversos tipos de trabalhos musicais, criar produtos musicais que vão desde coisas simples, como casamentos, festas, batizados, até concertos de música, ópera. A ideia é essa, trabalhar em todos os segmentos, e não só na música erudita, mas também na música popular.
Orquestrando - Que diferença você vê no cenário erudito e popular em termos de condições de trabalho?
W D - Eu não vejo muita diferença para o músico popular. Ele também sofre muito. O mercado nos compra, porque ele consome música de diversas maneiras. Na indústria tem uma série de eventos que acontecem durante o ano inteiro que as pessoas consomem música. Só que as o pessoal não tem onde buscar esse negócio. A cooperativa, na verdade, busca isso, ser um ponto onde as pessoas possam ter a sua necessidade musical satisfeita. Unimos dois pontos importantes: a necessidade do músico e a necessidade da indústria. Então acho que dessa maneira vamos criar uma oportunidade de trabalho a mais para esses músicos. Acho que é isso que falta para o mercado.
Orquestrando - Essa cooperativa estaria aberta a todos os músicos do País? Vocês também têm apoio de mais alguma entidade, de mais pessoas?
W D – Por lei sim. A cooperativa está aberta a todas as pessoas que moram no território nacional, brasileiros ou não, desde que devidamente inscritos na Ordem dos Músicos do Brasil. Nós temos o nosso escritório central e estamos fazendo uma estratégia para trabalhar com células. Nós vamos criar a célula de Sorocaba, vamos criar a célula de Piracicaba e estamos estudando a possibilidade de criar uma célula já em Curitiba para unir os músicos desses pólos e congregar essa necessidade e essa vontade de fazer música juntos e poder levar isso para o mercado.
Orquestrando - Qual o papel da Ordem dos Músicos do Brasil nesse cenário? Como ele tem contribuído para a expansão do mercado e também para melhores condições de trabalho para o músico?
W D - Essa pergunta é muito difícil. Eu sou filiado a Ordem dos Músicos desde 1987 e, sinceramente, eu encontrei tantas dificuldades no meu relacionamento com eles que acabei tornando ela na minha vida um órgão sem proveito. Eu não consigo me relacionar, realmente eles não têm nada que possa vir a me interessar, infelizmente. Eu vejo que existe uma diferença da dos Advogados, por exemplo, que falam com um determinado respeito e orgulho da ordem deles. Com os músicos é o contrário. A relação com a Ordem dos Músicos do Brasil é sempre complicada, ela é sempre parcial e isso desmotiva, sabe? A todos os músicos, não só a mim. Eu posso dizer por muita gente.
Orquestrando – Você falou em relação ao trabalho do músico tanto erudito quanto popular. O seu gênero é só erudito ou também popular?
W D - Eu estudei música erudita. Especificamente eu gosto de mexer com ópera. É isso que eu gosto. Mas eu, enquanto regente, tive que me envolver com outros trabalhos, tive que me envolver com música popular e vou ser bastante franco que pra mim foi um grande prazer. Foi um grande prazer trabalhar com música popular e fazer arranjos de coisas para coral e para grupos instrumentais. Eu tenho o foco e o coração voltado para música erudita, mas especificamente para a música sinfônica e de ópera. Mas eu acho não cantaria música popular, apesar de gostar muito. (risos)
Orquestrando - Você que já está há alguns anos no mercado como solista e também como regente. Como você avalia o preparo dos estudantes hoje?
W D - Existe uma pluralidade de informação disso que chamamos de escola de música, de ensino, tanto de canto quanto de regência, até de instrumental. Acho que a nossa cultura deixa algumas lacunas no crescimento musical, algumas coisas que são voltadas a educação mesmo. Por exemplo, o músico precisa de disciplina. O brasileiro não tem muito o hábito de ser disciplinado. O músico precisa ter disciplina, ele precisa estudar todos os dias. Eu vejo que nós temos faculdades, professores e músicos excelentes na condução dos nossos alunos. Acho que certamente nós teremos músicos incríveis daqui pra frente. Já temos e daqui pra frente ainda mais, mas, eu acho que a nossa cultura brasileira peca um pouco nisso, sabe? E o músico muitas vezes se percebe disso tardiamente. Às vezes é uma pena. O cara patina um tempão aí porque não tem disciplina. Isso é um problema.
Orquestrando - Há pouco tempo foi aprovada uma lei que garante o ensino da música nas escolas. Isso é bom para o Brasil?
W D - Eu acho isso fantástico porque a música no Brasil é uma coisa fantástica. Os nossos músicos são criativos. A nossa cultura, no consumo e na criatividade da arte é extremamente valorosa, rica. Eu acho que prover, desde a infância, uma orientação para esses que mais cedo ou mais tarde vão se despontar como músicos é fantástico. Você já vai plantar ali no sujeito a vontade de conhecer, vai plantar nele o desejo de desenvolver a curiosidade, o deslumbre, todas essas coisas que fazem parte da motivação. Sem contar os benefícios que a música traz na vida das pessoas.
Orquestrando - Hoje o músico, o cantor da música erudita, precisa dominar algumas línguas para poder trabalhar com seu repertório. Como foi isso para você? Você estudou quais línguas? Quais as dificuldades quando você é contratado para um trabalho novo cuja língua você desconhece?
W D – Excelente pergunta. Na verdade, o músico erudito tem que dominá-las mesmo, principalmente as línguas européias, o italiano, o inglês britânico, o francês, o espanhol, o alemão, sobretudo, são línguas que o cantor precisa estudar. Eu estudei todas essas línguas na intenção mesmo de poder ajustar minha profissão. Eu tenho fluência em algumas delas, por exemplo, o italiano, o inglês, eu já tive do alemão, mas o alemão você perde, porque é muito difícil. Mas eu estudei a fundo essa coisa de pronúncia, nisso eu caprichei mesmo. Não necessariamente você precisa ter domínio da língua, mas você precisa ser capaz de pegar um texto, um dicionário e saber o que é que você vai cantar, o que é que você vai interpretar, isso você precisa ser capaz de traduzir. Até porque na vida do cantor o mais importante da arte que ele pratica é justamente o texto, é a mensagem que você leva. Então isso é uma preocupação realmente muito grande que o cantor tem de ter.
Orquestrando - E como você vê o retorno de todo esse esforço?
W D – Na verdade eu não penso nisso. Eu penso que pra mim é um prazer toda vez que eu deparo com a necessidade de usar uma dessas coisas que eu estudei e ela estar lá. Eu posso, portanto, desfrutar. Então, na verdade, eu penso nessas coisas como ferramentas e eu eventualmente tenho a chance de usá-las. Então é um pouquinho cara essa coisa. Para ser cantor você tem que se aparelhar de uma série de coisas e de conhecimentos. É uma atividade difícil, mas muito prazerosa. Então é bom saber que quando você precisa de determinada coisa, você já passou por isso.
Orquestrando - Você já pensou em fazer alguma outra coisa da vida a não ser cantar?
W D - Fotografar. Fotografar e cozinhar são duas coisas que eu gosto muito. (risos)
Orquestrando - Hoje você tem isso como hobby?
W D - Eu tenho como hobby. Mas se não fosse músico acho que seria fotógrafo, talvez. (risos)
Orquestrando - Qual a obra do seu repertório que você considera mais difícil?
W D - Poxa, rapaz, eu já cantei tanta coisa muito difícil. Eu considero tudo difícil, a verdade é essa. Eu tenho humildade em dizer, porque todas as peças apresentam uma dificuldade peculiar. Eu não costumo graduar a dificuldade, eu costumo graduar os passos para atingir até a execução que me agrada e eu nunca estou satisfeito. (risos) Eu costumo pensar assim: isso é difícil? É. Ok. Então qual é a estratégia que vou ter para estudar essa peça a ponto de conquistá-la?
Orquestrando - Atualmente você desenvolve algum projeto ou está ligado a alguma instituição?
W D - Não, eu estou sem contrato, sem trabalho fixo, mas eu estou muito voltado para a cooperativa. Isso tem tomado quase todo o meu tempo. E eu acho isso bom porque no fim das contas eu quero que a cooperativa seja um sucesso.
Orquestrando - E quais seus planos para o futuro? Você pretende continuar estudando?
W D - Eu quero voltar para a escola. Quero voltar e fazer mestrado e seguir o quanto eu puder. Quero estudar mais regência, quero estudar mais canto. Eu estudo qualquer coisa, você põe na minha mão é só estudar. (risos) Mas eu quero voltar sim e fazer mais uma graduação, talvez, um mestrado ou sei lá, enfim.
Orquestrando - Você pensa em lecionar futuramente?
W D - Eu já dei aula durante muitos anos, mas eu gosto de ser músico de palco. A minha vontade é essa. Eu também gosto de lecionar. Eu tenho amor por essa atividade, mas ela nunca está nos meus planos. Se precisar ou se houver um convite ou qualquer coisa eu me disponho porque eu acho interessante, eu acho que eu voltaria a fazer, mas eu me sinto um músico de palco.











Parabéns ao Orquestrando ! Exelente blog ! É isso aí trazendo os bons músicos a dar sua palavra !!
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ei sou de garanhuns pe meu maior sonho é me torna um atro da musica pop e preciso de um estrutor musical mais não tenho dinheiro quero saber se enxiste a possibilidade de vc me ajudar a cantar e a expludir por todo territorio brasileiro e americano morro em garanhuns pe tenho 18 anos na rua flávio rangelk n 27 bairro magano garanhuns pe tel 8788071203 estou desesperado me ajudar pelo amor de deus eu só achei vc meu email é gilmar.barbosa.maluquinho@gmail.com
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