terça-feira, 7 de julho de 2009

Maestros, obras primas e loucura: um relato

O estudo musical pode ser considerado como um dos campos mais vastos do conhecimento humano. Não apenas pela quantidade de gêneros e obras que concentra, nem por aquelas que inevitavelmente surgirão, mas pelo grau de perfeição com que esta precisa ser concebida e interpretada. Além disso, uma classe de músicos, que não necessariamente arrancam sons dos instrumentos, mas gerenciam todos eles nas salas de concerto, devem estar com os ouvidos aguçados. Porém, nesse cenário nem todos os compositores, intérpretes e regentes conseguem conviver com tais exigências.


Esse é um dos elementos que o crítico e escritor britânico Norman Lebrecht, um dos mais respeitados comentaristas da música erudita da atualidade, aponta em seu último livro, Maestros, Obras Primas e Loucura: a vida secreta e a morte vergonha da indústria da música clássica.


Publicado na Inglaterra em 2007 e lançado recentemente no Brasil, sua obra apresenta os bastidores da brilhante e lucrativa indústria da gravação, as disputas por poder que caminharam junto ao desenvolvimento das tecnologias de captação sonora, seus personagens e como estes conseguiram adoecer os órgãos que compõem a música erudita.

Lebrecht faz um resgate histórico focalizando o início da era da gravação e como ela se tornou um desejo para homens ousados que alcançaram poder após sucessivos fracassos. Recheado de datas históricas envolvendo os principais músicos que se entregaram a esse “pecado”, seja na intenção de eternizar suas interpretações ou de faturar milhões com um contrato com os selos de gravação, ele não deixa de destacar ao longo de todo o livro como o interesse econômico superou a intenção de expandir esse gênero musical.

Os historiadores e estudiosos são harmônicos quanto ao fato de a primeira gravação ter ocorrido em 1877, um feito realizado pelo inventor Thomas Alvas Edison, que conseguiu capturar a própria voz em um fonógrafo ao entoar a canção Mary had a little Lamb (Maria tinha um carneirinho). A primeira gravação profissional que viria ser a propulsora desse reinado aconteceu em 1902, quando o tenor napolitano Enrico Caruso aceitou receber um cachê para contribuir com o início do processo que, como descrito por Lebrecht, ocasionou o declínio da música erudita.

O autor não descarta a contribuição que a indústria deu à difusão desse conhecimento, que até 1920, quando a novidade deslanchou, só poderia ser conferida nas salas de concerto, frequentadas em sua maioria pela burguesia. Para os mentores desse projeto e seus colaboradores, os próprios músicos, essa seria a chance de eternizar uma obra sem falhas e próxima à perfeição.

Sua redação prende o leitor e, em alguns utilizando certo ironismo, Lebrecht consegue plantar um sentimento duplo em quem acompanha seu relato. No livro, o autor resgata a visão do conservador Artur Schnabel, pianista do século passado que alegou aos sedutores que “o ato de gravar vai contra a própria natureza da execução musical”, porque isso elimina o contato visual entre executante e ouvinte, ato que desumaniza a arte. Para ele, a execução musical é um momento único no tempo. Uma mesma obra jamais terá o mesmo brilho duas vezes.

Outros, como o renomado e aclamado maestro Hebert Von Karajan, deviam tudo o que tinham graças aos estúdios. Karajan tornou-se conhecido por dirigir a Filarmônica de Berlim, uma das mais tradicionais e respeitadas do mundo. Seu reinado durou cerca de meio século, e suas gravações com essa e outras orquestras totalizaram mais de 200 milhões de discos vendidos, o elevando ao grau de artista clássico mais consumido.

Karajan foi um mixto de estrela e de ditador. Considerado como um dos maiores regentes que o mundo já viu, as coisas deveriam acontecer da forma como ele queria, e fazia de tudo para que sua opinião sobre os mais variados temas prevalecessem. Sua influência foi mais política do que musical, embora fosse considerado uma lenda viva. Mas isso era esquecido quando lembravam-se de seu forte temperamento. E foi com essa "garra" que se tornou um dos maiores milionários da indústria da música erudita.

Apenas um desabafo

Maestros, obras primas e loucura é divido em três sessões. A primeira, que se restringe ao desenrolar da história da gravação de música clássica, ainda leva o leitor a entender o contexto em que surgiram os principais selos do gênero e como estes seduziram os mais renomados músicos desse cenário. Obras primas eleva, com conceitos convincentes, os 100 melhores registros feitos ao longo desse primeiro século de gravação e loucura sintetiza as 20 piores, que nunca deveriam ter nascido.

Para chegar a tal resultado, Lebrecht, que é temido por produtores, intérpretes e regentes, criou uma enquete para verificar quais obras, na opinião do público, poderiam ou não ser consideradas uma raridade na produção e execução musical. Porém, ele destaca que fazer esse tipo de seleção é como catalogar os clássicos da literatura, que falam por si se devem ser eleitos ou não um marco nessa esfera.

Ele esclarece que não queria que a análise fosse realizada mediante critérios que, para alguns, poderiam ser referentes à intensidade da execução ou qualidade de gravação. E alerta que essa ainda pode não ser a lista ideal quando se trata das melhores obras, mas que a proximidade é similar.

A título de informação, entre as piores está registrado o disco Moment of Glory, gravado em 2000 pela Orquestra Filarmônica de Berlim e a banda de Rock Scorpions. Lebrecht aponta que isso ocorreu em um momento desesperador para a orquestra, que como tantas outras buscam um meio de gerar lucros para não morrer de fome. O maestro Simon Rattle, que não participou dessa “loucura”, considerou o feito como uma ideia horrível, e avisou aos músicos que aquilo não deveria se repetir. Para o autor do livro, as canções eram uma mistura de trilhas sonoras dos filmes de James Bond e velhos sucessos dos Rolling Stones.

Entre as melhores encontra-se a versão de 1955 das Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach, interpretadas por um pianista canadense de 23 anos que era definido como maluco, que murmurava enquanto tocava, se vestia inversamente às condições climáticas e que carregava sua própria banqueta de piano. Mais tarde, o mundo soube quem era Glenn Gould, que se tornou um dos maiores intérpretes da música do Bach. Gould se enamorou tanto pelos estúdios que, nove anos depois desta que foi sua primeira experiência de registro fonográfico, não quis mais saber de apresentações públicas, dedicando o resto de sua vida às gravações, que foram interrompidas quando faleceu, aos 50 anos.

Dentre as 100 melhores selecionadas pelo autor, a obra mais vendida de todos os tempos no campo erudito foi o Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, com 18 milhões de cópias. Os méritos são da Orquestra Filarmônica de Viena sob a regência do maestro George Solti.

Muito mais que um relato, a obra de Lebrecht pode ser considerada como um desabafo de alguém que viveu entre essa realidade e que agora denuncia a arma utilizada para tirar a música clássica de cena. O autor projeta que a compra de CDs, que em alguns casos já representou tiragens altíssimas para o setor, não sobreviverá aos próximos anos. É a Internet quem se carregará de continuar a difundir essa tradição, já que ela contribui para derrubar a indústria e está rumo a ocupar o seu trono.

Esse sobe e desce da indústria fonográfica, nas mãos de Lebrecht, pode ser definido do mesmo modo apontado pelo jornal The Economist: “um relato formidável.”

Norman Lebrecht é editor assistente do Evening Standard e apresentador do “levrecht.live” na Rádio BBC3. Ele escreveu 11 livros sobre música, traduzidos para 15 idiomas e é considerado um dos principais comentaristas culturas do nosso tempo. Lebrecht ganhou o prêmio Whitbread First Novel de 2003 com seu romance The Songs
of Names. É autor de O mito do maestro, publicado pela Civilização Brasileira. 

1 Comentário:

g disse...

Amigo,

artigo muito interessante! Uma boa dica para uma leitura crítica!

PAZ!

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